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Uma Questão de Consciência... Ou Moda?

Uma Questão de Consciência... Ou Moda?

Publicado em 2009-04-18

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Os últimos meses têm sido dos mais difíceis para o bodyboard, seja a nível nacional ou internacional.

O circuito nacional foi cancelado temporariamente devido à falta de apoios. É algo impensável numa altura em que o bodyboard nacional cresce a olhos vistos, com vitórias no estrangeiro – o actual campeão europeu é português – e com a juventude a dar cartas, mostrando todo o seu potencial.

Umas semanas após o anúncio da APB, surge a IBA a dar como descartada a etapa australiana de Cronulla Shark Island Challenge. O critério de um prize money de $20.000 USD não foi correspondido e o manager da IBA, Terry McKenna, deu por suspensa a realização da etapa.

Não deixo de concordar com a decisão. O tour é uma competição muito dura para os atletas, principalmente no que toca a finanças. Viajar pelo menos sete vezes para poder desta forma cumprir o número de etapas necessárias a almejar um bom ranking é monetariamente arrasador, principalmente nos dias de hoje. Por isso, é de todo imperial reunir uns prémios aliciantes, de modo a que a competição mantenha o prestígio, e chame atletas...mas principalmente, os recompense pelo esforço que estes fazem para poderem estar presentes.

O tour foi alterado este ano. O Grand Slam é uma excelente ideia, pois propicia uma mais correcta distribuição de pontuações e permite um melhor acesso às etapas principais, reduzindo o seu número, o que leva a que os atletas se resguardem ao longo do ano para este tipo de eventos. No entanto, não deixa de ser desgastante para a carteira dos que pretendem correr as etapas principais da competição.

Apesar destas contradições, julgo que nada há a fazer em relação a isto. Um menor prize money deixa de aliciar os atletas a participarem nos diferentes eventos e a redução de etapas tira prestígio à prova. Como ultrapassar tal situação?

Isto conduz-nos a outra notícia que deixou muita gente perplexa. Guilherme Tâmega está a ponderar pôr fim à sua carreira no tour. Isto não era novidade para ninguém, mais cedo ou mais tarde havia de deixar a competição por razões pessoais. Mas não acredito que nessas razões estivesse incluído a falta de apoio financeiro para correr as etapas do mundial. Um rider com um palmarés invejável, uma das lendas do desporto, vê-se traído por aqueles que não apostaram nele como veículo de promoção comercial, apesar de tudo o que fez e deu ao desporto.

Mas existe uma tese que defendo em relação a toda esta questão: o bodyboard evoluiu muito, para patamares provavelmente impensáveis. Os impulsionadores dessa evolução fizeram-se notar e levaram consigo toda uma geração. É a geração actual...os "wanna be aussie".

Apesar dos australianos não serem quem vence mais campeonatos, foram eles que elevaram o bodyboard a um nível completamente inovador. Exploraram ondas desconhecidas, desafiaram as leis da física sem qualquer receio. E divulgaram-no. Mostraram o real significado do bodyboard. O seu estilo define-os no seio do desporto. E é esse estilo e esse "no fear" que faz deles a moda que todos querem seguir. Independentemente dos resultados que alcancem, o que os ajuda a comercializar é a sua atitude no que toca a desbravar as ondas existentes em redor do seu continente, com uma postura que só eles possuem. Os próprios media da especialidade, sabem que são eles quem vende, são eles que geram o dinheiro que faz desenvolver a indústria deste desporto. E nem é preciso ir mais longe...olhem para o vosso lado quando estão na água com outros bodyboarders em redor. Reparem bem no seu quiver, e digam lá se é ou não "made in Australia".

Por muitos campeonatos que o GT viesse a ganhar, ou o Pinheirinho, ou Pitaça...fosse quem fosse, são os australianos quem influência as massas.

E o mérito é todo deles. Souberam desafiar-se a si próprios e consciencializar-se que se querem crescer, têm de se fazer à estrada. Foram investindo no desporto, e colocaram-no no lugar que hoje lhe conhecemos. E não foi pelo tio Mike ou o Guilherme paparem títulos atrás de títulos que os aussies deixaram de investir no desporto. E as taças que o GT somou ao longo dos anos também não foram suficientes para que os seus apoios se mantivessem com ele.

Agora, juntando toda esta questão em volta do cancelamento da etapa em Shark Island e do "self-promotion" australiano e todas as empresas existentes naquele país à volta do desporto, não seria realmente possível financiar o Shark Island Challenge? As pequenas empresas não podiam juntar-se, e ajudar a financiar a sua única etapa a contar para o mundial?

Acredito que podiam ter feito mais nesta questão, mas também se impõe o porquê de fazerem-no. Recebem todo o retorno que necessitam patrocinando riders que são modelos para, provavelmente, mais de 90% da população bodyboarder. E os mundiais apenas se encarregam de garantir mais notoriedade para estes riders e seus promotores.

Assim, apesar de todas estas análises, no que toca ao nosso país as coisas mantém-se. A marca "bodyboard" não vende (excepto o material técnico, obviamente). Embora o mercado do desporto vindo da Oceânia chegue cá com uma maior facilidade – cada vez são mais as marcas que chegam até cá – a moda do "surf wear" continua na vanguarda. A "morangada" assim ditou as regras, e veio para ficar.

Uma questão de consciência...ou moda?

Ricardo Miguel Vieira

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